Advento
da pólis[1], nascimento da filosofia:
entre as duas ordens de fenômenos os vínculos são demasiado estreitos para que
o pensamento racional não apareça, em suas origens, solidário das estruturas
sociais e mentais próprias da cidade grega. *
Quando Aristóteles[2] define o homem como
"animal político", sublinha * que * se o homo sapiens[3] é a seus olhos um homo politicus[4], é que a própria Razão, em
sua essência, é política. De fato, é no plano político que a Razão, na Grécia,
primeiramente se exprimiu, constituiu-se e formou-se. A experiência social pôde
tornar-se entre os gregos o objeto de uma reflexão positiva, porque se
prestava, na cidade, a um debate público de argumentos. *
Quando nasce *, a filosofia está enraizada nesse pensamento
político cujas preocupações fundamentais traduz e do qual tira uma parte do seu
vocabulário. É verdade que bem depressa se afirma com maior independência. *
Encontrou seu caminho próprio: explora um domínio novo, coloca problemas que só
a ela pertencem. *
O que implica o sistema da pólis é primeiramente uma extraordinária preeminência da palavra
sobre todos os outros instrumentos de poder. Torna-se o instrumento político
por excelência, a chave de toda autoridade no Estado, o meio de comando e
domínio sobre outrem. *
Esse desenvolvimento comporta uma profunda transformação.
Tornando-se elementos de uma cultura comum, os conhecimentos, os valores, as
técnicas mentais são levados à praça pública, sujeitos à crítica e à
controvérsia. Não são mais conservados, como garantia de poder, no recesso de
tradições familiares; sua publicação motivará * interpretações diversas,
oposições, debates apaixonados. Doravante, a discussão, a argumentação, a
polêmica tornam-se as regras fundamentais do jogo intelectual, assim como do
jogo político.[5]
*
A lei da pólis,
por oposição ao poder absoluto do monarca, * já não se impõe pela força de um
prestígio pessoal ou religioso; deve mostrar sua retidão por processos de ordem
dialética[6].
VERNANT, Jean-Pierre. As origens do pensamento grego. Rio de
Janeiro: Difel, 2006. p. 141 a 143; 53 a 56.
[1]
A pólis, ou Cidade-Estado, é um tipo
de organização social surgido na antiga Grécia que amplia o direito de
participação na vida pública - os "direitos políticos" - para um
número maior de membros da sociedade, em comparação com outros agrupamentos
sociais historicamente anteriores ou externos à Grécia. A figura do cidadão, polites, passa significar a ideia de um participante ativo na vida
política da sua sociedade, corresponsável
pela administração da pólis, seja votando
nas assembleias populares para decidir governantes, leis e orientações para o
Estado, seja utilizando sua liberdade de expressão (a isegoria) nestas assembleias, seja exercendo de maneira rotativa cargos
públicos de administração e governança (as magistraturas), seja participando da
defesa da sua sociedade como guerreiro (no âmbito do que chamaríamos hoje em
dia de "política externa"). Foi a atividade dos cidadãos na pólis grega, com seus direitos e
deveres, que originou o que hoje em dia se entende pela palavra
"política". Nas sociedades políticas, como cada um dos cidadãos retém
um certo poder e todos eles estão submetidos à igualdade diante da lei, os
governantes não exercem seu poder segundo a inconstância ou vaidade da sua
própria vontade, como frequentemente acontecia nas monarquias absolutas antes
da pólis, ou nas tiranias e
despotismos. Portanto, no interior das póleis,
os governantes sempre estão sempre submetidos ao "império da lei". A pólis
grega surgiu a partir do séc. VIII a.C., atingindo sua plenitude nos sécs. VI e
V a.C., no chamado período clássico da história grega.
[2]
Filósofo grego Aristóteles, que viveu de 384 a.C. a 322 a.C.
[3]
Homo sapiens: denominação que, no
século XVIII, o médico, botânico e zoólogo sueco Lineu atribuiu à espécie
humana. Traduzido do latim significa literalmente "homem sábio" ou
"homem que sabe". A classificação de Lineu está inspirada na
caracterização de Aristóteles do ser humano como animal essencialmente
racional, isto é, capaz de experimentar o pensamento e utilizar a palavra.
[4]
Homo politicus: caracterização do ser
humano como um animal essencialmente político. A ideia é formulada pelo
filósofo grego Aristóteles. Em sua
argumentação, Aristóteles relaciona diretamente a natureza racional do ser humano com sua natureza política. Por ser racional, o ser humano traz dentro de si a
faculdade do pensamento e da palavra, e portanto a capacidade do discurso, da
argumentação. Isto significa uma capacidade para debater publicamente e decidir
o justo e o injusto, o certo e o errado para a vida social. Debater e decidir
tais questões seriam as características fundamentais da vida política, que se
confundem com a própria natureza racional do ser humano.
[5]
Apesar disso, Aristóteles distingue sociedades políticas com maior participação
dos cidadãos, as chamadas "democracias" (das quais Atenas é o modelo
principal), e sociedades políticas com menor participação dos cidadãos, as
chamadas "oligarquias" (das quais Esparta é o modelo principal).
[6]
Dialética: dialógica, argumentativa.
Com relação à organização social e política: os gregos não
inventaram apenas a ciência ou a Filosofia, mas inventaram também a política.
Todas as sociedades anteriores a eles conheciam e praticavam a autoridade e o
governo. Mas, por que não inventaram a política propriamente dita?
Nas sociedades orientais e não-gregas,
o poder e o governo eram exercidos como autoridade absoluta da vontade pessoal
e arbitrária de um só homem ou de um pequeno grupo de homens que decidiam sobre
tudo, sem consultar a ninguém e sem justificar suas decisões para ninguém.
Os gregos inventaram a política
(palavra que vem de polis, que, em
grego, significa cidade organizada por leis e instituições) porque instituíram
práticas pelas quais as decisões eram tomadas a partir de discussões e debates
públicos e eram adotadas ou revogadas por voto em assembleias públicas; porque
estabeleceram instituições públicas (tribunais, assembleias, separação entre
autoridade do chefe de família e autoridade pública, entre autoridade
político-militar e autoridade religiosa) e sobretudo porque criaram a ideia da
lei e da justiça como expressões da vontade coletiva pública e não como
imposição da vontade de um só ou de um grupo, em nome de divindades.
Os gregos criaram a política porque
separaram o poder político e duas outras formas tradicionais de autoridade: a
do chefe de família e a do sacerdote ou mago *.
A invenção da política * introduz três
aspectos novos e decisivos para o nascimento da filosofia:
2. O surgimento de um espaço público,
que faz aparecer um novo tipo de palavra ou de discurso, diferente daquele que
era proferido pelo mito. Neste, um poeta-vidente, que recebia das deusas
ligadas à memória (a deusa Mnemosyne,
mãe das Musas, que guiavam o poeta) uma iluminação misteriosa ou uma revelação
sobrenatural, dizia aos homens quais eram as decisões dos deuses que eles
deveriam obedecer.
Agora, com a polis, isto é, a cidade política, surge a palavra como direito de
cada cidadão de emitir em público sua opinião, discuti-la com os outros,
persuadi-los a tomar uma decisão proposta por ele, de tal modo que surge o
discurso político como a palavra humana compartilhada, como diálogo, discussão
e deliberação humana, isto é, como decisão racional e exposição de motivos ou
das razões para fazer ou não fazer alguma coisa.
A política, valorizando o humano, o
pensamento, a discussão, a persuasão e a decisão racional, valorizou o
pensamento racional e criou condições para que surgisse o discurso ou a palavra
filosófica.
CHAUI, Marilena. Convite à filosofia.
São Paulo: Ática, 1994. p. 28 e 32.
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